Michael Bakunin inicia Deus e o Estado, com a seguinte pergunta: “Quem está certo, os idealistas ou os materialistas?”. Porém, ele não está realmente colocando esta dicotomia em questão, ao contrário, ele continua o texto dizendo que não é preciso pensar duas vezes, obviamente os materialistas estão certos, e ponto final. Tal convicção era comum entre os pensadores do século XIX. Ao dizer isso Bakunin estava concordando com todos os outros grandes pensadores da época, de Proudhon a Karl Marx. Ser materialista no século XIX era quase uma questão de princípios.
Bakunin afirma no mesmo parágrafo que “toda história da humanidade, intelectual e moral, política e social, é nada mais que o reflexo da sua história econômica.” Há muitas maneiras de entender o que Bakunin estava dizendo, mas podemos apontar algumas premissas básicas que estão pressupostas no seu pensamento. A economia era considerada, na época, uma ciência revolucionária. Ela trouxe a possibilidade de falar da sociedade em termos de sua organização material, sem recorrer à metafísica. O racionalismo e o moralismo eram os grandes inimigos dos pensadores revolucionários, que estavam vivendo numa sociedade que acabara de sair de uma longa dominação por parte dos escolásticos. Os pensadores estavam ávidos para pensar por si mesmos, e o materialismo representava essa independência. Afinal, uma explicação com base material é empírica, depende da experiência e não de representantes do saber.
Mas o que podemos falar hoje sobre esta tendência determinista que reduz à sociedade a um reflexo de sua história econômica? O que os antropólogos têm a dizer sobre isso? Provavelmente, que Bakunin não conseguia ver além da dicotomia entre idealismo e materialismo. Ele estava compromissado demais com o materialismo e o humanismo de sua época para enxergar que idealismo e materialismo são dois lados da mesma moeda. Ele não estava pronto para criticar a dicotomia em si, ele só queria negar o idealismo.
Para Bakunin, era suficiente dizer que toda a ciência confirma o materialismo para que isso servisse de prova inegável de que o materialismo é a forma correta de se pensar. Em outras palavras, ele não tinha uma crítica à ciência. Ele estava anunciando o materialismo, em suas próprias palavras, como “uma grande verdade, fundamental e decisiva”. Ele considerava a humanidade “o desenvolvimento último e supremo” e “a mais alta manifestação de animalidade”. Superioridade da espécie humana era uma conclusão geralmente tirada de uma concepção errônea de evolução humana, típica do materialismo do século XIX. O conceito de evolução que foi popularizado na época era completamente progressista, e nem mesmo Darwin concordava com ele.
Bakunin afirma que a humanidade é “essencialmente a deliberada e gradual negação do elemento animal no homem”. Ele está usando a dialética materialista de Marx, segundo a qual o desenvolvimento é inevitavelmente a negação de um elemento interno que, ao mesmo tempo, gera a superação da mesma. É por negar sua animalidade que o homem a supera e se torna o maior dentre os animais. O que Bakunin está afirmando é que faz parte da natureza do homem negar sua natureza animal, pois o desenvolvimento civilizado é inevitável, e é tanto racional quanto natural. O que temos aí é a velha dicotomia entre homem e natureza.
Como fica bem claro em Deus e o Estado, o homem está num grau mais elevado em relação aos outros animais, porque possui “o poder de pensar”. Isto levou os anarquistas clássicos a interpretações errôneas sobre a natureza humana, a evolução e o papel do homem no mundo. Interpretações que são inconsistentes com a anarquia verde, que leva em consideração o naturalismo e a naturalidade humana. De certa forma, os anarquistas clássicos são hoje mais esquerdistas que os próprios marxistas, porque defendem um materialismo ainda mais radical. Isso os faz pensar que a história da humanidade é a história do avanço material da civilização, e dificulta qualquer tentativa de crítica à própria civilização.
Em Deus e o Estado também há uma interpretação bastante peculiar da Bíblia. Segundo Bakunin, Deus é maligno porque impediu o homem de provar da “árvore do conhecimento”, e queria que o homem continuasse para sempre como uma besta, “de quatro perante o Deus eterno”. Satanás seria o emancipador do homem. Esta interpretação remete à dicotomia entre homem e natureza, e ignora um detalhe importante: o nome da árvore citada em Gêneses não era simplesmente “árvore do conhecimento”, mas sim “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Não era o conhecimento que estava proibido ao homem, mas sim esse conhecimento específico, da distinção entre o bem e o mal, que é reservada somente a Deus apenas porque ele seria o único capaz de julgar com imparcialidade sobre o que é bom e o que é mau.
Na interpretação bíblica de Bakunin, a expulsão do paraíso representa a emancipação, liberdade da tirania de um Deus que exige obediência. Porém, outra interpretação é possível. Daniel Quinn interpreta este mito de forma completamente diversa, embora ele também se oponha à religião e ao Estado. Para Quinn, o paraíso representa o estado natural do homem, vivendo sem civilização. Seu pecado, o desejo de possuir o conhecimento do bem e do mal, representa a crença de que ele pode ser o juiz sobre o que é correto. O poder de distinguir entre o bem e o mal, neste sentido, é o poder de saber qual é a forma correta de se viver para todos os seres. É o poder de decidir o que deve existir e o que não deve, e de que forma eles devem viver. Isto inclui seres humanos de outras tribos. Assim, é o surgimento de uma cultura de dominação total. Para Quinn, o mito foi criado para descrever o surgimento da cultura civilizada, onde é preciso extrair a subsistência da natureza à força, ao invés de recebê-la de graça. O que é considerado a maior benção de nossa civilização é, a princípio, uma maldição divina causada por um erro gravíssimo.
Para Quinn, este mito bíblico antecede o Deus de Abraão, uma vez que Abraão unifica as tribos hebraicas, tornando-as civilizadas. A partir de Abraão, o mito de criação passa a ser interpretado de outra forma: é como se o pecado original fosse do homem, Adão, e não de alguns homens. Assim, toda a humanidade estaria condenada a viver de seu próprio suor, ou seja, na civilização. Mas como isso era possível, se o mito data de quando os hebreus ainda viviam de caça e coleta? Eles ainda não plantavam nem criavam animais como Caim e Abel. Pois isso exige domesticação de plantas e animais. Para Quinn, isso quer dizer que eles tinham a “vida eterna”, ou seja, um modo de vida sustentável. A cultura do trabalho e da acumulação representa o fim da vida eterna, porque é o fim da sustentabilidade.
Nós deveríamos ser muito mais críticos em relação às ideologias do século XIX do que os autores que viveram nessa época eram, pois nós temos a vantagem da perspectiva mais ampla. E embora não possamos evitar os novos erros que provavelmente estamos cometendo, podemos pelo menos evitar cometer os erros antigos, e quem sabe aprender alguma coisa com eles.
Links sobre o assunto:
Anarquia Verde vs Anarquismo Clássico
O Pós-Anarquismo
Anarquismo verde
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